Replicação, backup, alta disponibilidade e governança de dados
Do zero
Imagine o livro de protocolos de um tribunal, onde cada processo que entra é anotado. Três perigos rondam esse livro, e cada um tem um remédio:
- O livro pode pegar fogo. Remédio: uma secretária copia cada anotação, na mesma hora, num segundo livro, em outra sala. Isso é replicação: outro servidor recebe cada mudança do banco principal e mantém uma cópia viva.
- Alguém pode riscar uma página por engano. A secretária copiaria o risco também. Remédio: fotografias do livro guardadas no cofre, mais o registro de tudo o que foi anotado desde a foto. Isso é backup: com ele dá para voltar ao livro como estava antes do erro.
- O protocolo não pode parar. Se a sala principal fechar, a outra sala assume na hora. Isso é alta disponibilidade: o serviço continua mesmo com falha de um servidor.
E alguém precisa decidir quem pode ler o livro, quem responde pelo que está escrito e como garantir que as anotações estejam certas. Isso é governança e segurança de dados.
Frase para guardar: a réplica protege contra a perda do servidor; o backup protege contra o erro, que a réplica copia; governança diz quem responde pelo dado.
Em 1 minuto
- Replicação síncrona: o COMMIT só termina depois que a réplica confirma; não se perde transação confirmada, mas cada gravação fica mais lenta. Assíncrona: o primário confirma sem esperar; é mais rápida, mas as últimas transações podem se perder numa falha.
- Primário e réplicas (antes chamados mestre e escravos): só o primário aceita escrita; as réplicas de leitura aliviam relatórios e consultas. Failover é a réplica assumir quando o primário cai. No PostgreSQL, a promoção é um comando (pg_ctl promote ou a função pg_promote()), e o failover automático exige uma ferramenta externa, como o Patroni; no Oracle, o Data Guard faz o failover automático com o Fast-Start Failover.
- Backup lógico exporta os objetos e dados (pg_dump, Data Pump); físico copia os arquivos do banco (pg_basebackup, RMAN). Quente é feito com o banco no ar; frio, com o banco parado.
- Recuperação até um ponto no tempo (PITR): backup físico mais o arquivo contínuo do log de transações (WAL no PostgreSQL, archived redo logs no Oracle) permitem voltar a um instante exato, como um minuto antes de um DELETE errado.
- Alta disponibilidade se mede em “noves”: 99,9% de disponibilidade admite cerca de 8,76 horas paradas por ano; 99,99%, cerca de 52,6 minutos.
- Governança de dados: papéis (proprietário, curador e custodiante), qualidade, catálogo e metadados. Segurança: menor privilégio, criptografia em repouso e em trânsito, mascaramento e auditoria.
Exemplo concreto: o DELETE sem WHERE das 14h10
O sistema de protocolo roda num PostgreSQL com uma réplica síncrona em outro prédio. Às 14h10, um técnico executa, por engano:
DELETE FROM processo; -- faltou o WHERE
A réplica apaga tudo também, em milissegundos: ela copia fielmente o que o primário faz. A replicação não ajuda aqui. O que salva é o backup:
- Toda madrugada, um backup físico completo (pg_basebackup).
- O tempo todo, o arquivamento do WAL, o registro de cada mudança, num local separado.
- Para recuperar, restaura-se o backup da madrugada e se reaplicam as mudanças do WAL até as 14h09 (no PostgreSQL, com o parâmetro
recovery_target_time).
Resultado: o banco volta como estava às 14h09, sem perder o trabalho da manhã. Só com o backup lógico da noite anterior (pg_dump), a manhã inteira estaria perdida.
Agora a falha física: às 16h, o servidor principal queima. A réplica síncrona é promovida a primária, e o sistema volta em poucos minutos, sem perder nenhuma transação confirmada. Aqui a replicação é que resolve.
Comparação: replicação, backup e segurança dos dados
| Síncrona | Assíncrona | |
|---|---|---|
| Quando o COMMIT termina | Depois que a réplica confirma | Sem esperar a réplica |
| Perda numa falha do primário | Nenhuma transação confirmada | As últimas transações ainda não copiadas |
| Desempenho | Gravação mais lenta (espera a rede) | Gravação rápida |
| Uso típico | Dados que não podem se perder, réplica próxima | Réplica distante, réplicas de leitura |
| Backup lógico | Backup físico | |
|---|---|---|
| O que copia | Objetos e dados (comandos ou formato próprio) | Os arquivos do banco, bloco a bloco |
| Ferramentas | pg_dump, Data Pump (Oracle) | pg_basebackup, RMAN (Oracle) |
| Restaurar uma tabela só | Fácil | Difícil |
| Volta a um ponto no tempo | Não | Sim, com o log de transações arquivado |
| Bancos grandes | Lento | Mais rápido |
| Recurso | Para que serve | Exemplo |
|---|---|---|
| Menor privilégio | Cada usuário só com o que precisa | GRANT SELECT só na view, não na tabela |
| Segurança por linha | Cada usuário vê só as suas linhas | Políticas de linha (row-level security) do PostgreSQL |
| Criptografia em repouso | Proteger arquivos e backups roubados | TDE do Oracle; disco ou backup cifrado |
| Criptografia em trânsito | Proteger os dados na rede | Conexão com TLS |
| Mascaramento | Esconder parte do dado sensível | CPF exibido como ***.456.789-** |
| Auditoria | Registrar quem fez o quê e quando | Trigger de auditoria; pgaudit; auditoria unificada do Oracle |
Nos dois SGBDs: no PostgreSQL, a replicação física é por streaming do WAL, e a lógica usa publicações e assinaturas. No Oracle, o Data Guard mantém um banco standby, que assume em caso de falha; o RAC (Real Application Clusters) põe várias instâncias, em servidores diferentes, sobre o mesmo banco, protegendo contra a queda de um servidor, mas não contra a perda do armazenamento.
Governança de dados: quem responde pelo dado
Governança de dados é decidir quem manda em cada dado e com que regras, não só guardar bem. Os papéis mais cobrados:
- Proprietário (owner): a área de negócio que responde pelo dado e decide quem pode usá-lo. Exemplo: a Secretaria de Gestão de Pessoas, pelo cadastro de servidores.
- Curador ou administrador de dados (data steward): cuida, no dia a dia, da definição, da qualidade e do uso correto do dado, em nome do proprietário.
- Custodiante: a TI, que guarda, protege e faz backup, sem decidir sobre o conteúdo.
Qualidade de dados se mede por dimensões: completude (o campo está preenchido?), unicidade (o mesmo servidor não aparece duas vezes?), exatidão (o valor corresponde à realidade?), consistência (dois sistemas dizem o mesmo?), atualidade ou tempestividade (o dado está em dia?) e validade (o valor obedece ao formato e às regras?).
O catálogo de dados lista as bases que existem, o significado de cada campo (metadados), o proprietário e a linhagem: de onde o dado veio e por quais transformações passou. A referência mais citada é o DAMA-DMBOK, o guia de conhecimento em gestão de dados da DAMA International.
Como a FCC cobra
Replicação síncrona × assíncrona, backup lógico × físico (e a recuperação até um ponto no tempo), e o fato de a replicação não substituir o backup.
- Failover, réplica de leitura, Data Guard e RAC.
- Backup quente × frio; pg_dump × pg_basebackup; RMAN.
- Disponibilidade em “noves” e tempo parado por ano.
- Papéis da governança (proprietário, curador, custodiante) e dimensões da qualidade de dados.
Pegadinhas
- “Com uma réplica síncrona, o backup se torna desnecessário.” Falso: um erro lógico, como um DELETE sem WHERE, é copiado para a réplica; só o backup permite voltar no tempo.
- “A replicação assíncrona garante que nenhuma transação confirmada se perca.” Falso: essa garantia é da síncrona; na assíncrona, as últimas transações podem não ter chegado à réplica.
- “O pg_dump permite recuperar o banco até um instante qualquer entre dois backups.” Falso: o backup lógico é uma foto; a recuperação até um ponto no tempo exige backup físico e o WAL arquivado.
- “O RAC protege o banco contra a perda do armazenamento.” Falso: as instâncias do RAC compartilham o mesmo banco; contra a perda do armazenamento ou do site, usa-se um standby, como o Data Guard.
- “O custodiante é quem decide quem pode acessar os dados.” Falso: decide o proprietário; o custodiante guarda e protege.
Explique com suas palavras
Explique a um gestor por que ter uma réplica do banco em outro prédio não dispensa o backup, e o que é recuperar o banco até um ponto no tempo.
- Escreva sem olhar a lição, com frases curtas e um exemplo seu.
- Onde travar ou precisar de jargão, há uma lacuna: releia só essa parte.
- Compare com a explicação-modelo e reescreva o que faltou.
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Comparar com uma explicação-modelo
A réplica é uma cópia viva: tudo o que acontece no banco principal acontece nela logo em seguida. Se o servidor principal queimar, a réplica assume e o sistema continua. Mas, se alguém apagar dados por engano, a réplica apaga também, porque ela copia tudo, inclusive o erro.
O backup é diferente: é uma foto do banco num momento, guardada à parte. Somando a foto da madrugada ao registro de cada mudança feita depois, dá para reconstruir o banco exatamente como estava em qualquer minuto, por exemplo, um minuto antes do erro. Isso é a recuperação até um ponto no tempo. A réplica cuida da falha do equipamento; o backup cuida do erro.
Teste-se
Banco de Dados · Replicação e backup · Inédita, estilo FCC
Questão 1 de 3
Um tribunal quer que, se o servidor principal do banco de dados falhar, nenhuma transação já confirmada ao usuário seja perdida, ainda que isso torne as gravações um pouco mais lentas. Para isso, deve adotar replicação
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Banco de Dados · Replicação e backup · Inédita, estilo FCC
Questão 2 de 3
Às 14h10, um comando DELETE sem cláusula WHERE apagou todas as linhas de uma tabela de um banco PostgreSQL, que tem uma réplica síncrona e backup físico diário, feito à 1h, com arquivamento contínuo do WAL. Para recuperar os dados com a menor perda possível, deve-se
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Banco de Dados · Replicação e backup · Inédita, estilo FCC
Questão 3 de 3
Sobre o utilitário pg_dump, do PostgreSQL, é correto afirmar que ele
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Mais duas questões deste tópico estão em Questões.
Flashcards gerados
| Frente | Verso |
|---|---|
| Por que a réplica não substitui o backup? | Porque a réplica copia tudo, inclusive os erros; um DELETE indevido chega a ela em segundos. Só o backup permite voltar no tempo. |
| Failover | A réplica assume como primária quando o servidor principal falha, manualmente ou de forma automática. |
| Data Guard × RAC (Oracle) | O Data Guard mantém um banco standby, que assume numa falha; o RAC põe várias instâncias sobre o mesmo banco e não protege contra a perda do armazenamento. |
| Proprietário, curador e custodiante dos dados | O proprietário (área de negócio) responde pelo dado e decide o acesso; o curador cuida da definição e da qualidade; o custodiante (TI) guarda e protege. |
| Mascaramento de dados | Esconder parte de um dado sensível ao exibi-lo ou ao copiá-lo para testes, mantendo o formato. Exemplo: CPF exibido como ***.456.789-**. |
Ligação com o estudo de caso
Num caso sobre o banco de um sistema crítico, separe as duas ameaças: contra a falha do servidor, réplica (síncrona, se não se pode perder transação) com failover; contra o erro e o ransomware, backup físico com arquivamento do log de transações, uma cópia fora do local e outra offline ou imutável (que o atacante não consiga cifrar nem apagar), e testes de restauração. Feche com a segurança (menor privilégio, criptografia, mascaramento dos dados sensíveis nos ambientes de teste, auditoria) e com os papéis da governança: quem é o proprietário de cada base.
Fontes da lição
- Edital nº 01/2026, Anexo II, Banco de Dados (fontes/edital-01-2026.txt).
- Documentação do PostgreSQL: alta disponibilidade e replicação e backup contínuo e recuperação até um ponto no tempo.
- Documentação do Oracle Database: Data Guard e RMAN.
- DAMA International, DAMA-DMBOK: Data Management Body of Knowledge, 2ª ed. (governança, papéis e qualidade de dados).
Claude explica
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Pratique fora do site
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