Sentido e discurso, figuras de linguagem e intertextualidade
Do zero
As palavras têm dois jeitos de significar:
- Denotação é o sentido de dicionário, literal: “o cofre era pesado” (tinha muitos quilos).
- Conotação é o sentido figurado, que nasce do contexto: “o clima da reunião ficou pesado” (tenso). Ninguém pesou o clima numa balança.
Quando o sentido figurado segue um padrão conhecido, ganha nome de figura de linguagem: comparar sem “como” é metáfora; trocar o governo por “Brasília” é metonímia; exagerar é hipérbole.
Há também jeitos diferentes de contar o que alguém disse. É o discurso:
- Direto: as palavras exatas da pessoa, com aspas ou travessão. O diretor disse: “Entrego amanhã.”
- Indireto: o narrador conta com as próprias palavras. O diretor disse que entregaria no dia seguinte.
- Indireto livre: a fala ou o pensamento da personagem se mistura à voz do narrador, sem aspas e sem “disse que”. O diretor olhou o relógio. Amanhã, sem falta, aquilo estaria entregue.
Por fim, todo texto conversa com outros textos (intertextualidade) e com o seu tempo (contexto histórico): um texto de 1900 e um de 2026 sobre “tecnologia” falam de coisas muito diferentes.
Frase para guardar: denotação é dicionário, conotação é contexto; direto cita, indireto conta, indireto livre mistura.
Em 1 minuto
- Do direto para o indireto, quando o verbo de dizer está no passado (disse, afirmou), tudo recua um passo: a pessoa (eu → ele), o tempo (presente → imperfeito; perfeito → mais-que-perfeito; futuro do presente → futuro do pretérito; imperativo → imperfeito do subjuntivo), o lugar (aqui → ali) e o momento (hoje → naquele dia; amanhã → no dia seguinte; ontem → na véspera). Com o verbo de dizer no presente, o tempo se mantém: “O diretor afirma: ‘Entregarei’” → “O diretor afirma que entregará”.
- Figuras de palavra: metáfora, comparação, metonímia, catacrese, sinestesia.
- Figuras de pensamento: hipérbole, eufemismo, ironia, antítese, paradoxo, prosopopeia (personificação), gradação.
- Figuras de construção: elipse, zeugma, pleonasmo, polissíndeto, anáfora, hipérbato (inversão da ordem).
- Intertextualidade: citação (texto alheio entre aspas), paráfrase (o mesmo sentido com outras palavras), paródia (retoma o texto para criticar ou fazer humor), alusão (referência indireta) e epígrafe (citação na abertura).
Exemplo concreto: uma fala em três discursos
Direto: O diretor afirmou: “Amanhã entregarei o relatório nesta sala.”
Indireto: O diretor afirmou que no dia seguinte entregaria o relatório naquela sala.
Veja cada recuo: “amanhã” → “no dia seguinte”; “entregarei” (futuro do presente) → “entregaria” (futuro do pretérito); “nesta” → “naquela”; e a fala vira uma oração com “que”.
Indireto livre: O diretor fechou a pasta e olhou para a mesa vazia. Amanhã, sem falta, o relatório estaria ali. Saiu apagando as luzes.
A frase do meio é o pensamento do diretor, mas não há aspas nem “pensou que”: a voz dele invade a do narrador.
| Discurso direto | Discurso indireto |
|---|---|
| “Eu analiso.” (presente) | Ele disse que analisava. (imperfeito) |
| “Eu analisei.” (perfeito) | Disse que tinha analisado ou analisara. (mais-que-perfeito) |
| “Eu analisarei.” (futuro do presente) | Disse que analisaria. (futuro do pretérito) |
| “Analise o processo.” (imperativo) | Pediu que analisasse o processo. (imperfeito do subjuntivo) |
| este, esse, aqui, hoje | aquele, ali, naquele dia |
| amanhã, ontem | no dia seguinte, na véspera |
Comparação: as figuras que mais caem
| Figura | O que faz | Exemplo |
|---|---|---|
| Metáfora | Compara sem conectivo | A burocracia é um labirinto. |
| Comparação | Compara com conectivo (como, tal qual) | A burocracia é como um labirinto. |
| Metonímia | Troca por relação de proximidade (lugar pelo governo, autor pela obra, parte pelo todo) | Brasília ainda não respondeu. Leu Machado nas férias. |
| Catacrese | Metáfora gasta, por falta de palavra própria | O pé da mesa; o braço da cadeira. |
| Sinestesia | Mistura sentidos | Uma voz áspera; uma cor quente. |
| Hipérbole | Exagera | Já pedi isso mil vezes. |
| Eufemismo | Suaviza | O servidor foi desligado (demitido). |
| Ironia | Diz o contrário do que pensa | Que eficiência: três anos para responder a um ofício! |
| Antítese | Aproxima ideias opostas | Rápido na teoria, lento na prática. |
| Paradoxo | Junta ideias opostas numa só afirmação, que parece absurda | Um silêncio ensurdecedor. |
| Prosopopeia | Dá ação humana a coisa | Os números gritam por uma auditoria. |
| Gradação | Sequência em intensidade crescente ou decrescente | Leu, releu, decorou. |
| Elipse | Omite termo fácil de deduzir | Na sala, apenas dois auditores. (havia) |
| Zeugma | Omite termo já dito antes | Ele preferiu o relatório; eu, o parecer. (preferi) |
| Pleonasmo | Repete a ideia para reforçar | Vi com meus próprios olhos. |
Antítese × paradoxo: na antítese, os opostos ficam em partes diferentes da frase e se contrastam; no paradoxo, estão fundidos numa só ideia, que parece contraditória (“é ferida que dói e não se sente”, de Camões).
Contexto histórico: para entender um texto, pergunte quando e para quem foi escrito. Uma crônica que reclama da “velocidade assustadora do telégrafo” só faz sentido no século XIX; ler com os olhos de hoje leva a conclusões erradas. A prova costuma perguntar o que um trecho revela sobre a época ou que referência histórica ele pressupõe.
Como a FCC cobra
Transposição do discurso direto para o indireto (os tempos verbais e os advérbios que mudam) e identificação de figuras de linguagem, sobretudo metáfora, metonímia, ironia, antítese, eufemismo e prosopopeia.
- Sentido denotativo × conotativo de uma palavra no texto.
- Reconhecer o discurso indireto livre num trecho narrativo.
- Relação entre textos: paródia, paráfrase, citação.
- O que o texto pressupõe sobre o seu contexto histórico.
Pegadinhas
- “‘A burocracia é como um labirinto’ é metáfora.” Falso: com o conectivo “como”, é comparação; sem ele, metáfora.
- “No indireto, ‘Eu entregarei’ vira ‘ele disse que entregará’.” Falso: o futuro do presente vira futuro do pretérito: “entregaria”.
- “O discurso indireto livre usa aspas para marcar a fala da personagem.” Falso: não tem aspas nem verbo de dizer; a fala se funde à narração.
- “Paródia e paráfrase são a mesma coisa.” Falso: a paráfrase mantém o sentido do original; a paródia o subverte, com crítica ou humor.
- “‘Brasília não respondeu’ é prosopopeia.” Falso: é metonímia: a cidade está no lugar do governo, que é quem de fato responde. Prosopopeia é dar ação humana a uma coisa, como em “os números gritam”.
Explique com suas palavras
Explique a um colega como transformar “O diretor afirmou: ‘Amanhã entregarei o relatório nesta sala’” em discurso indireto, dizendo o porquê de cada mudança.
- Escreva sem olhar a lição, com frases curtas e um exemplo seu.
- Onde travar ou precisar de jargão, há uma lacuna: releia só essa parte.
- Compare com a explicação-modelo e reescreva o que faltou.
Fica salva neste navegador.
Comparar com uma explicação-modelo
No discurso direto, quem fala é o diretor, no momento dele. No indireto, quem fala é o narrador, depois. Por isso tudo o que estava preso ao momento e ao lugar do diretor recua um passo. “Amanhã” era o dia seguinte à fala, então vira “no dia seguinte”. “Nesta sala” era a sala onde o diretor estava, então vira “naquela sala”.
O verbo também recua: “entregarei” é um futuro visto a partir de agora; contado depois, vira um futuro visto do passado, “entregaria”. E a fala passa a ser uma oração ligada por “que”: “O diretor afirmou que no dia seguinte entregaria o relatório naquela sala.”
Teste-se
Língua Portuguesa · Sentido, discurso e figuras · Inédita, estilo FCC
Questão 1 de 3
O diretor afirmou: “Amanhã entregarei o relatório nesta sala.” Transpondo-se a fala para o discurso indireto, obtém-se, em conformidade com a norma-padrão:
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Língua Portuguesa · Sentido, discurso e figuras · Inédita, estilo FCC
Questão 2 de 3
“Brasília ainda não respondeu ao pedido de recursos feito pelo município.” Nessa frase, há a figura de linguagem denominada
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Língua Portuguesa · Sentido, discurso e figuras · Inédita, estilo FCC
Questão 3 de 3
A palavra “pesado” está empregada em sentido conotativo em:
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Mais duas questões deste tópico estão em Questões.
Flashcards gerados
| Frente | Verso |
|---|---|
| Metáfora × comparação | A comparação usa conectivo (como, tal qual); a metáfora compara sem conectivo. Exemplo: “É como um labirinto” (comparação); “é um labirinto” (metáfora). |
| Antítese × paradoxo | A antítese contrasta ideias opostas em partes diferentes da frase; o paradoxo funde os opostos numa só ideia, que parece absurda. Exemplo: “Rápido na teoria, lento na prática” (antítese); “silêncio ensurdecedor” (paradoxo). |
| Eufemismo | Suavizar uma ideia desagradável com uma expressão mais branda. Exemplo: “Foi desligado” no lugar de “foi demitido”. |
| Direto → indireto, os tempos | Com o verbo de dizer no passado, presente vira imperfeito; perfeito vira mais-que-perfeito; futuro do presente vira futuro do pretérito; imperativo vira imperfeito do subjuntivo. |
| Prosopopeia (personificação) | Atribuir ações ou sentimentos humanos a coisas ou animais. Exemplo: “Os números gritam por uma auditoria.” |
Ligação com o estudo de caso
Texto técnico pede denotação: “o sistema ficou indisponível por quatro horas”, e não “o sistema foi um desastre”. Evite hipérboles e ironias na discursiva. Quando citar uma norma ou um gestor, prefira o discurso indireto, com os tempos recuados (“o gestor informou que o contrato venceria em março”), e use aspas só para trechos literais.
Fontes da lição
- Edital nº 01/2026, Anexo II, Língua Portuguesa (fontes/edital-01-2026.txt).
- Evanildo Bechara, Moderna gramática portuguesa (figuras de linguagem e discurso relatado).
- José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, Para entender o texto: leitura e redação (denotação, conotação e intertextualidade).
Claude explica
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